Nada de racismo: a versão de Mauricio de Sousa para Caçadas de Pedrinho

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“Lá isso é – resmungou a preta, pendurando o beiço” virou “Lá isso é – resmungou ela”.

“Só então a pobre negra se convenceu de que tinha errado” passou a ser “Só então Tia Nastácia se convenceu de que tinha errado”.

“Um menino, duas meninas, um leitão, uma boneca, uma velha branca e uma velha preta” foi encurtado: “Um menino, duas meninas, um leitão, uma boneca, duas senhoras”.

“Boa negra” deu lugar a “boa mulher”.

“Trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro”, principal alvo das acusações contra um dos mais famosos escritores brasileiros, resume-se a “subiu pelo mastro de São Pedro”.

As modificações dos trechos racistas da versão original de “Caçadas de Pedrinho” são as maiores diferenças da adaptação do clássico de Monteiro Lobato que acaba de sair pela Girassol em parceria com a Mauricio de Sousa Produções. O livro ilustrado traz personagens da Turma da Mônica incorporando ícones de nossa literatura infantil, como Pedrinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia, mira frequente das investidas preconceituosas de Lobato.

Por conta de trechos como os destacados acima, “Caçadas de Pedrinho” se tornou o objeto preferencial dos que criticam o Lobato. “Prefiro acreditar que, apesar de defender ideias modernistas, ele não deixou de ser fruto da época em que viveu. E não acho que esses equívocos em seus textos originais invalidem o encanto de suas obras através dos tempos. Por isso, nos livros desta coleção, todos os trechos com esse viés totalmente intolerável [o preconceito, no caso] foram editados”, escreve Mauricio na introdução de “Turma da Mônica – Caçadas de Pedrinho”, terceiro volume de uma série que também conta com adaptações de “O Sítio do Picapau Amarelo” e “Narizinho Arrebitado” – juntos, os dois últimos mencionados já venderam mais de 30 mil exemplares.

Outros elementos criticados no texto de Lobato, como o tom heroico das caçadas e o hábito de fumar, permanecem nessa versão encarnada pelo povo do bairro do Limoeiro. “Naquela época, ninguém pensava (ainda) no desmatamento da Floresta Amazônica ou da Mata Atlântica, por exemplo. Por isso, para Pedrinho, caçar um rinoceronte ou uma onça era uma aventura incomparável, digna de um verdadeiro herói. Lobato nem sonhava que, no futuro, essa prática fosse ameaçar tantos animais de extinção”, segue Mauricio.

No mais, o que temos são pequenas adaptações de linguagem e a atualização ou supressão de certas expressões. “Terreiro” vira “quintal”, por exemplo, enquanto o galo garnisé desaparece da frase “Bem que sei que você é valente como um galo garnisé”, dita por Tia Nastácia. Segundo Regina Zilberman, especialista em Monteiro Lobato e responsável pelo texto da adaptação, sua maior tarefa foi concentrar a narrativa “nos momentos das ações e aventuras desempenhadas pelas personagens principais, deixando de fora o que poderia ser acessório. Muitas vezes o que esteve no centro das polêmicas do livro era meramente acessório, sem maior peso no transcurso dos acontecimentos”, relatou em entrevista ao Página Cinco.

Em setembro de 2019, por conta de uma matéria sobre a adaptação de Pedro Bandeira para a história de Narizinho, diversos leitores acusaram o autor (que, dentre outras coisas, tirou Pedrinho da história) de cometer um sacrilégio contra a obra do Lobato. Ao ser perguntada sobre a maneira como fãs podem receber versões de obras consagradas, Regina lembrou que o próprio Lobato assinou diversas adaptações de textos.

“Pedro Bandeira assinou a adaptação que fez, de modo que se tornou o autor do texto. Assim, ele não cometeu nenhum sacrilégio, porque seu livro passou a constituir uma nova obra”, explica. “Lobato também fez adaptações, como a de Peter Pan e do Dom Quixote. Como particularizou esses livros, tornou-se autor deles; a partir desse ponto, não se pode cobrar dele o que fez ou deixou de fazer”.

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